AGRONEGÓCIO

Mercosul, Brics ou acordos bilaterais: o que está em jogo para o agro brasileiro em 2027?

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Foto: Ministério da Economia

Em uma eleição marcada por diferentes propostas de inserção internacional, o agronegócio precisa estar atento a como as escolhas de política externa podem repercutir sobre mercados, insumos e segurança comercial.

Para o agronegócio brasileiro, política externa nunca foi uma discussão restrita à diplomacia. Decisões tomadas em Brasília sobre alianças, blocos econômicos, acordos comerciais e relações bilaterais chegam ao campo na forma de acesso a mercados, exigências sanitárias, disponibilidade de insumos, investimentos e condições de competitividade.

Em 2026, essa relação se torna ainda mais evidente. A China respondeu por 35,1% das exportações brasileiras do agronegócio no primeiro semestre, seguida pela União Europeia, com 14,5%, e pelos Estados Unidos, com 5,7%. São mercados relevantes, inseridos em contextos geopolíticos distintos e com interesses comerciais próprios.

Ao mesmo tempo, o Brasil permanece altamente dependente do mercado internacional para abastecer parte importante de sua produção. Mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país são importados, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes. Isso significa que estabilidade diplomática, logística internacional e diversificação de fornecedores também têm impacto direto sobre custos e planejamento do produtor.

É nesse contexto que as propostas de política externa apresentadas na eleição presidencial merecem especial atenção do setor.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresenta uma estratégia baseada no fortalecimento do multilateralismo, do Mercosul, do Brics e das relações com países do Sul Global, mantendo a China como parceiro relevante dentro dessa arquitetura.

Flávio Bolsonaro tem defendido maior aproximação com os Estados Unidos, retomada do processo de adesão à OCDE e maior abertura comercial. Seu programa registrado no TSE prioriza a OCDE e não faz referência direta ao Mercosul ou ao Brics, enquanto declarações posteriores do candidato detalharam posições sobre esses agrupamentos.

Ronaldo Caiado apresenta propostas de maior flexibilidade nas relações comerciais e no funcionamento do Mercosul, enquanto Romeu Zema defende a saída do Brics, maior abertura comercial e mudanças na configuração do bloco sul-americano. Renan Santos, por sua vez, tem defendido uma atuação internacional pragmática, incluindo a manutenção de relações com diferentes parceiros.

São propostas registradas em um momento no qual o comércio internacional brasileiro já convive com novas tensões. Em 2026, medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos passaram a atingir parcelas das exportações brasileiras, enquanto o governo brasileiro acionou mecanismos de diálogo bilateral e de solução de controvérsias.

Para o agro, porém, o debate não deveria se limitar aos nomes dos blocos ou ao alinhamento diplomático de cada candidatura. O que importa, na prática, é compreender como cada desenho de política externa poderá se traduzir em condições concretas para produzir e comercializar.

Mercosul, Brics e acordos bilaterais cumprem funções diferentes. Da mesma forma, as relações com China, Estados Unidos, União Europeia e novos mercados não precisam ser analisadas apenas sob uma lógica de escolha entre parceiros. O agronegócio brasileiro opera em várias dessas frentes simultaneamente.

A China é o principal destino das exportações do setor. Os Estados Unidos permanecem como mercado relevante e ator central em tecnologia, investimentos e comércio internacional. A União Europeia representa outro importante destino para produtos brasileiros e mantém uma agenda própria de requisitos comerciais, ambientais e regulatórios. Paralelamente, países da Ásia, Oriente Médio e outras regiões vêm ampliando sua importância para a estratégia brasileira de diversificação.

Essa realidade ajuda a explicar por que previsibilidade é uma palavra tão importante para o setor.
O produtor toma decisões meses antes da colheita. A indústria realiza investimentos com horizontes ainda maiores. Exportadores precisam conhecer regras sanitárias, tarifárias e regulatórias para construir mercados. Mudanças bruscas no ambiente internacional podem afetar desde o preço de um fertilizante até a possibilidade de embarcar determinado produto.

Isso não significa que a política externa consiga eliminar riscos geopolíticos. Significa que ela pode influenciar a capacidade brasileira de manter canais de negociação, ampliar destinos, administrar conflitos comerciais e evitar concentrações excessivas.

A eleição presidencial de 2026 coloca diferentes propostas de inserção internacional diante do eleitor. Para o agronegócio, acompanhar essas propostas é importante não apenas pelo debate político que carregam, mas pelos efeitos que poderão ter sobre uma atividade profundamente conectada ao mundo.

Em 2027, a principal questão para o agro talvez não esteja em escolher entre Oriente e Ocidente, Mercosul ou acordos bilaterais. Estará em acompanhar se a política externa brasileira conseguirá ampliar mercados, preservar relações comerciais estratégicas e oferecer previsibilidade para um setor cuja competitividade depende, cada vez mais, da capacidade do país de dialogar com diferentes parceiros ao mesmo tempo.

*Karina Tiezzi é gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais. Atuou como assessora legislativa na Câmara dos Deputados, participou da tramitação de proposições de destaque para o agronegócio, como a chamada MP do Agro e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental


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